No Ceqfaam, o projeto deve continuar sendo desenvolvido nos próximos anos. (Marcello Casal Jr / Agência Brasil)
Codó (MA) - No Centro Quilombola de Alternância Ana Moreira (Ceqfaam), o
projeto Coisa de Preto leva a linguagem, dança, culinária e
religiosidade africana para a sala de aula. O colégio funciona há quatro
anos na comunidade quilombola Santo Antônio dos Pretos, na área rural
de Codó, no interior do Maranhão, a 300 quilômetros de São Luís. Coisa
de Preto é o primeiro projeto desenvolvido voltado para a cultura
afro-brasileira. Embora não tenha sido criado com esse propósito, o
projeto marca os dez anos da
Lei 10.639/03 que torna obrigatório no currículo escolar o ensino da história e cultura africana.
“Vamos aproveitar o mês da
consciência negra [novembro] para fortalecer e valorizar a cultura afro.
Serão várias apresentações que vão envolver as cidades e as comunidades
próximas”, disse o idealizador do projeto o professor Solon da Nóbrega.
“As nossas raízes foram se perdendo”, declarou Francisco Carlos da
Silva, uma das lideranças da comunidade quilombola Centro do Expedito.
“A Lei 10.639 diz que se deve trabalhar dentro das disciplinas a questão
da importância e valorização da história da África. Mas, infelizmente,
isso não acontece. Se você pesquisar as comunidades quilombolas, não só
em Codó, mas no Brasil, é uma raridade ver o jovem quilombola envolvido
na questão cultural, na questão da sua identidade”, declarou.
No Ceqfaam, o projeto deve continuar sendo desenvolvido nos próximos
anos. “Os alunos que não moram em uma área quilombola não levam muito a
sério isso. Mas nós, que moramos, levamos. Para mim é importante, e eu
sei que vai ajudar no meu desenvolvimento tanto como pessoa como na
comunidade”, disse a estudante do 3º ano do ensino médio, Francisca
Aldaísa da Silva.
No fim do ano, Aldaísa conclui a formação básica e tem um plano:
estudar para ser aprovada em uma faculdade, e cursar pedagogia. “Quero
ser professora e ensinar na comunidade. Eu vejo que a comunidade precisa
de professores para ensinar os próprios alunos”. Silva concorda com
Aldaísa. Segundo ele, a falta de formação e o preconceito, tanto de
professores que vêm de fora, como dos próprios moradores, principalmente
religiosos, fazem com que a Lei 10.639 não seja cumprida. As religiões
cristãs têm ganhado espaço nas comunidades quilombolas, fazendo com que
religiões como a umbanda tenham menos adeptos.
De acordo com a secretária de Educação Continuada, Alfabetização,
Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação (MEC), Macaé
Maria Evaristo dos Santos, a formação de professores é preocupação do
MEC, “Estamos falando de comunidades quilombolas, que têm uma história
diferenciada, que têm aspectos culturais próprios e que devem ter essa
história, memória e tradições orais garantidas no currículo dessas
escolas”, ressaltou.
Maria Evaristo disse que a pasta tem feito investimentos específicos
para a formação de professores de comunidades quilombolas e que, além
disso, está implementando em 43 universidades o curso de licenciatura
para educação no campo. Foi feito um edital em 2012 e foi autorizada
pelo Ministério do Planejamento a contratação de professores. Ainda não
há data definida para que os cursos comecem a funcionar. “Vamos
construir uma rede potente no Brasil que vão produzir, além da formação
de professores, novas pesquisas, novos olhares sobre a questão. Durante
muito tempo essas pessoas [do campo] não foram pensadas na perspectiva
do direito”, destacou.
Sobre o cumprimento da Lei 10.639/03, a secretária do MEC declarou que
ainda é preciso avançar muito na produção de conteúdos, não só para a
formação de professores, mas para que poder desenvolvê-los em sala de
aula. Apesar disso, ela avaliou que houve avanços. “A lei trouxe uma
mudança de paradigmas, se antes havia uma negação do racismo em sala de
aula, hoje temos uma demanda por formação em história e cultura africana
e afro-brasileira e educação para as relações étnico-raciais”,
concluiu.
Edição: Aécio Amado
Fonte: http://www.ebc.com.br/educacao/2013/10/projeto-leva-ensino-da-cultura-africana-para-escola-de-comunidade-quilombola-no